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Família e amigos

sábado, 22 de maio de 2010

Bicho papão da minha imaginação





A gente tem muitos bichos na vida. Eu, como toda criança, tive meu bicho papão particular, chamado medo.
Bicho Papão, aparecia nas horas mais escuras da noite, naquelas horas em que a cabeça da gente começava a imaginar besteira, imagina, imagina, de repente o medo toma conta do mundo.
Bicho Papão a gente inventa.
O meu foi inventado por uma cozinheira gorda, chamada Guiomar. Guiomar era preta, gordíssima e vivia contando histórias terríveis, de botar cabelo em pé. Eu tenho cabelo crespo,
até hoje, por culpa da Guiomar. Ela me contou cada uma, arrepiei tanto, que arrepiada fiquei!
Dizem que a gente não deve contar histórias de meter medo pra crianças, por isso não vou contar o que Guiomar contava. (...)
Lembrei de uma reza que Guiomar tinha me ensinado pra espantar todos os males do mundo.
Era uma reza complicada, precisava rezar e dar uns pulinhos e umas voltas. Pra rezar aquilo seria necessário sair de baixo do cobertor. Deus me acuda!
Meu Bicho Papão era assim: tinha pés pra trás e eram de pato. Às vezes eram só de pato, virados pra frente mesmo.
Resolvi tomar coragem, mas o pavor não passava. Era preciso rezar a reza de Guiomar, pois comecei a ouvir a voz de papai, como se ele tivesse uma voz com sotaque papônico. Aí, era
preciso sair da cama e rezar a reza!
Pulei da cama, rápido, acendendo a luz de cabeceira. Sombras enormes projetavam-se nas paredes, a cortina continuava a dançar, enquanto o vento gemia lá fora: uuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! (...)
Nesta exata hora (...) meu pai entrou no quarto (...):
– Você precisa dormir, menina. Amanhã o colégio começa cedo.
Resolvi espiar. Eu ia dar uma olhadinha rápida nos pés do meu pai, era só tomar coragem.
Suava frio, tremia toda, apavorada.
– Você está com frio?
– Pronto! Ele perguntou isso só pra me soprar o fogo de suas ventas! Era a mula-sem-cabeça, fingindo ser papai. Tinha pé de pato, com certeza absoluta!
Tomei coragem, virei os olhos pra baixo pra espiar. Neste segundo, ele apagou a luz, dizendo:
– Boa noite.
Fiquei sem saber se era meu pai, ou se era o Bicho Papão. Até hoje meu cabelo é duro de pentear. Espetou, arrepiado pra sempre!

Adap. Sylvia Orthof .Bicho papão da minha imaginação. In: Os Bichos que tive (memórias
zoológicas).Rio de Janeiro : Salamandra, 1983.

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